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9 de janeiro de 2013

Sobre bolos e migalhas


Sobre bolos e migalhas

        Essa é mais um conto da garota infeliz apelidada de cinza por este que vos escreve. Só cinza agora. Era oficialmente uma adulta, havia completado 18 anos, e dera uma bela festa. Ela roubou um bolo do padeiro gordo na esquina, e fez das migalhas de pão que costumava dar aos pombos – Só os cinzas, nem pretos, nem marrons, nem brancos. Os cinzas -.

       Convidou todos os amigos que conhecerá ao longo de dois anos na cidade grande. O Primeiro atendia pelo nome de Peter. O conheceu em um sebo, enquanto procurava um livro para roubar, uma vez que nem só de pão se alimenta a solidão, meus caros.

       Abriu um exemplar de “O morro dos ventos uivantes”, e lá estava ele, em formato de dedicatória. Nunca leu o livro, mas a dedicatória relia todas as noites, feita uma oração, na esperança de um dia acreditar que era para ela, e não para a moça apelidada “Deusa” por seu amigo, e apenas amigo, Peter.

      Iracema também estava presente. Conheceu a menina num recorte de jornal. Morta aos quinze, em um beco, não comi a dias. A fotografia era toda cinza. Era, aos olhos da menina, uma amiga madura e vivida. La não falava muito da garota, mas ela parecia o tipo que alimentaria aos amigos antes de si mesmo. Era o mais próximo de um deus, ou santo, que a Cinza tinha para rezar.

      Entre porta-retratos, fotos 3x4, e até mesmo roupas, para outros amigos sem nome, ela devorava o bolo e as migalhas. Eu fui o ultimo a chegar, e nem entrei na festa. Só observei aquela garota, festejar sua solidão em meio a fuligem. Fui covarde, eu sei. Mas prometi não mais ser. Nunca mais.

26 de dezembro de 2012

A Garota Cinza

A Garota Cinza


           Lá estava ela. Toda trabalhada em escalas de cinza e preto. Sua camiseta outrora fora estampada com o nome de alguma banda de rock, mas o tempo levara a estampa e deixara a camisa apenas preta, tão envelhecida e desgastada que já se tornara quase cinza. As calças costumavam ser roxas, mas a fuligem do dia-a-dia e o desleixo da garota a deixaram mais preta que a blusa. E a mesma fuligem e o mesmo desleixo tornaram o rosto dela também cinza.
         
           Mas não a boca, e não seus olhos. Seus olhos eram feitos do azul claro mais belo que eu já havia visto, algo como a cor que as hortênsias têm perante a luz do luar e dos primeiros raios de sol. Seus olhos, vez ou outra postos em cima de mim, que contrastam tão bem com seus lábios azul meia noite, estes sim eu queria sobre mim...

           Ela jogava truco, com alguns fora da lei mais imundos que nós dois juntos, e aquela coisinha azul meia noite havia proferido mais palavrões na ultima rodada que eu em minha vida toda. Pedi uma ultima dose e anunciei:

           - Vou jogar.

           Não era um pedido, e não admitia recusa e o máximo que ela fez foi balançar os ombros cinza, e falar algo como:

           - Um ladrão a mais ou a menos não fará diferença.

          A risada dos homens foi gostosa, e a minha amarga, mas eram palavras tão vazias quanto meu copo e aquelas duas coisinhas azul hortênsia tinham um brilho mais ardido que o cigarro em sua boca. Puxei a cadeira e as cartas e lá se foi a noite, entre doses de bebida baratas, perdas e ganhos e, horas depois, estavam todos tão bêbados que já não distinguiam as cartas.

         Fomos embora daquele hospício que chamamos de lar. Sim, fomos, eu e aquelas coisinhas azuis. “Na minha casa ou na sua?” Perguntei, e a resposta foi muda. Despiu-se ali, a luz da lua, despiu-me, e possuiu-me. Sim, foi ela que me possuiu, num ato mudo. O ato de uma garota cinza que conhecia todos os palavrões, mas nenhuma palavra de amor.